25ANOS 1997-2022 A CONSOLIDAÇÃO DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA NO BRASIL 25 ANOS — A CONSOLIDAÇÃO DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA NO BRASIL
4 1. PRIMEIROS PASSOS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA BRASILEIRA 5 1.1. PRIMÓRDIOS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA 9 1.2. PIONEIROS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA NO BRASIL 15 1.3. CLUBE DOS ANGIOGRAFISTAS 21 1.4. RENAN UFLACKER 26 2. FUNDAÇÃO DA SOBRICE (1997-2001) 27 2.1. FUNDAÇÃO DA SOBRICE 34 2.2. COLÉGIO BRASILEIRO DE RADIOLOGIA 38 2.3. RONIE LEO PISKE (1997-1998) 44 2.4. NESTOR HUGO KISILEVZKY (1998-2001) 49 3. O CICLO DE ESTRUTURAÇÃO (2001-2008) 50 3.1. CRESCÊNCIO ALBERTO PEREIRA CENTOLA (2001-2003) 55 3.2. TEMPO DE QUALIFICAÇÃO 59 3.3. CARLOS GUSTAVO COUTINHO ABATH (2003-2005) 65 3.4. VALÉRIA CARDOSO DE SOUZA (2006-2008) SUMÁRIO
71 4. O CICLO DE CONSOLIDAÇÃO (2009-2016) 72 4.1. FRANCISCO CESAR CARNEVALE (2009-2010) 77 4.2. PRÊMIO RENAN UFLACKER 81 4.3. ALEXANDER RAMAJO CORVELLO (2011-2012) 86 4.4. FELIPE NASSER (2013-2014) 91 4.5. RICARDO AUGUSTO DE PAULA PINTO (2015-2016) 96 5. O CICLO DE MATURAÇÃO, EXPANSÃO E RENOVAÇÃO (2017-2022) 97 5.1. DANIEL GIANSANTE ABUD (2017-2018) 103 5.2. MARCOS ROBERTO DE MENEZES (2019-2020) 108 5.3. SOBRICE JÚNIOR 110 5.4. JOAQUIM MAURÍCIO DA MOTTA LEAL FILHO (2021-2022) 116 5.5. PASSADO, PRESENTE E FUTURO 120 CONGRESSOS SOBRICE (1998-2022) 128 EXPEDIENTE
4 1PRIMEIROS PASSOS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA BRASILEIRA
1.1. PRIMÓRDIOS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA QUANDO A FICÇÃO CIENTÍFICA SE TORNA REALIDADE A primavera se despedia e a temperatura estava agradável naquele mês de junho, na pequena cidade tcheca de Karlovy Vary, quando Charles Dotter (1920-1985) desembarcou de uma cansativa viagem de 11 horas desde sua Portland, em Oregon, Estados Unidos. Na bagagem, o médico radiologista vascular norte-americano, então com 44 anos, levava o resultado de horas de estudo, muito entusiasmo e uma enorme expectativa. Chamado para palestrar no Congresso Tcheco de Radiologia que acontecia na cidade, pela primeira vez ele iria apresentar, oficialmente, sua invenção. Determinado e apaixonado, Dotter tinha certeza de que, com sua ajuda, a medicina daria um salto para o futuro a partir daquela data. Tomado por essa certeza, intitulou assim sua palestra: “Cateterismo cardíaco e técnicas de angiografia do futuro”. Estávamos em 1963, ano em que o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, fora assassinado em um passeio de carro aberto, e o momento de sua morte foi acompanhado pela televisão, com perplexidade, pela população mundial. Espremidos entre os mandos e desmandos políticos dos líderes de duas nações poderosas do planeta — União Soviética e Estados Unidos —, vivíamos também sobressaltados com as notícias de guerras como a do Vietnã, que durou de 1955 a 1975. Mas ali, na linda cidadezinha que serviu como cenário de muitos filmes — entre eles 007 Cassino Royale —, a conversa era bem outra. Tratava-se de salvar vidas com uma abordagem totalmente inovadora. Não era um devaneio. Dotter trazia ao mundo médico a notícia de que era possível tirar os bisturis das mãos dos cirurgiões e substituí- -los por pequenos tubos capazes de viajar pelos sistemas arteriais e venosos do corpo humano, sem necessitar de incisões. E mais: dessa forma, daria também uma nova função aos angiografistas, que até aquela data só se preocupavam em entregar diagnósticos radiográficos, confirmando ou não as suspeitas clínicas, para os cirurgiões selecionarem, entre si, qual o tratamento mais adequado ao paciente. Na plateia do congresso tcheco, cerca de 300 médicos ouviram com atenção redobrada as explicações de Dotter. O médico falou por uma hora e foi, durante todo o tempo, exultante, inspirador. No final, o auditório em peso aplaudiu-o por vários minutos. E ele respirou, aliviado. Talvez tivesse passado por sua cabeça, enquanto palestrava, o temor de viver algo parecido com o que acontecera ao prêmio Nobel Werner Forssmann, quando submeteu a seus pares, em um congresso de cirurgia em 1931, sua experiência com a cateterização vascular. 5 SOBRICE 25 anos
Ninguém prestou atenção a Forssmann, e ele teve seu tempo de fala diminuído de oito para quatro minutos. Mais de 30 anos depois, a situação foi bem diferente. Os médicos Joseph Rösch, Frederick Keller e John Kaufman registraram, em 2003, no artigo “O nascimento, os primeiros anos e o futuro da Radiologia Intervencionista”, a reação dos ouvintes — Rösch estava na plateia, era secretário do Congresso. Depois da chuva de palmas, contam, fez-se silêncio. “Parecia que uma bomba tinha caído no auditório. Nenhum de nós presentes naquele congresso poderia sonhar que o discurso de Dotter se tornaria realidade.” Nenhuma surpresa para Dotter, a julgar por este fragmento de sua palestra: “A angiografia por cateter pode ser mais do que uma ferramenta passiva de observação diagnóstica. Usada com imaginação, pode se transformar num importante instrumento cirúrgico.” Foi assim o início da Radiologia Intervencionista (RI), expressão criada em 1967 pelo sérvio-americano Alexander Margulis, radiologista da Universidade da Califórnia. De início, Dotter não gostou dela, achou-a imprecisa, mas acabou cedendo, porque concluiu que ela permitia a definição de uma nova subespecialidade na radiologia. Ele sabia que estava à frente de seu tempo. Terminado o encontro na cidade tcheca, Charles Dotter fez as malas e voou os 8 mil e 700 quilômetros de volta para a Oregon Health and Science University, seu local de trabalho. Havia muito a ser feito para dar prosseguimento ao que iniciara. Seis meses depois, em 16 de janeiro de 1964, Charles Dotter, auxiliado pelo seu colega Melvin P. Judkins, transformou seu discurso em prática. Internada no hospital da Universidade de Oregon, Laura Shaw, de 82 anos, sentia dores horríveis na perna esquerda por causa de uma isquemia decorrente de doença obstrutiva arterial periférica (DAOP), tinha alguns dedos do pé gangrenados e se recusava, terminantemente, a ter a perna amputada, única solução que o corpo médico poderia imaginar para aplacar o sofrimento da mulher. Dotter soube do caso e se aproximou. Depois de conversar com Laura e apresentar-lhe a possibilidade de ser submetida a uma intervenção percutânea (mais tarde conhecida como angioplastia transluminal percutânea) que dilataria a estenose na artéria femoral superficial, ele conseguiu sua permissão para a intervenção. E deu certo, a estenose foi tratada com um cateter 6 Cateter-balão desenvolvido por Andreas Grüentzig para angioplastia transluminal percutânea de artéria femoral superĊcial. Material doado à Sobrice pelo cirurgião vascular Dr. Antônio Villela de Mendonça Uchôa.
coaxial de 3,2 mm. Em pouco tempo, as dores cessaram, as feridas cicatrizaram, e Laura saiu do hospital caminhando. Ela não teve mais nenhum problema com a perna até a morte, dois anos e meio depois, por pneumonia. Dotter não cabia em si de entusiasmo com o sucesso de sua intervenção. Ele queria que o mundo tomasse conhecimento da abordagem inovadora que criara, trazendo benefícios reais para os pacientes. Era um procedimento menos invasivo, não fazia ferida cirúrgica (um curativo pode ser usado para proteger a incisão) e tinha uma recuperação muito mais rápida: dependendo do caso, o paciente poderia voltar para casa até no mesmo dia, o que diminui muito a ocorrência de infecção hospitalar. Quem não conseguiria enxergar tamanhas vantagens? A notícia da intervenção bem-sucedida chegou exatamente aonde devia para pôr em prática o desejo de Dotter: em agosto de 1964, ele foi procurado por uma equipe da prestigiada revista norte-americana Life Magazine. Repórter e fotógrafo acompanharam o trabalho do médico no hospital, fazendo flagrantes, coletando frases contundentes. Dotter não se poupou. Liberou o acesso dos jornalistas, compartilhou seu grande entusiasmo com a equipe. O resultado dessa experiência foi, no mínimo, polêmico, já que o médico foi retratado como uma espécie de cientista maluco. Deram-lhe o apelido de “Crazy Dotter”, como relata Enio Ruble, da equipe do médico, no documentário Explorers of the heart, dirigido por Burt Cohen: “Dr. Dotter era um showman. Mas, na verdade, a reportagem da Life ficou meio dramática, e os clínicos não reagiram bem, passaram a relutar em indicar pacientes. Mas muitas pessoas vinham, mesmo assim, porque compraram a ideia, que era verdadeiramente estupenda.” Em entrevista à rede CNN, em 1981, Dotter relembra aquele momento e faz uma reflexão: “Talvez eu tenha errado na maneira de apresentar o procedimento ao mundo, mas não estou bem certo disso.” Embora tenha feito essa autoanálise, ele não perdeu o entusiasmo nem a certeza de que era preciso informar ao mundo seu invento. Escrevia artigos sobre cada procedimento que realizava, buscava parcerias e conseguiu ser ouvido, embora em um ritmo mais lento do que desejava. Foram mais de dez anos para que as ideias de Dotter se estabelecessem, até porque o senso comum da comunidade médica reagiu à reportagem da Life. E muitos chegaram a ridicularizar as ideias do “crazy doctor”. Os ventos foram mudando aos poucos, e a nova abordagem médica começou a se espalhar, afetando médicos que acreditavam na RI como um grande ramo da medicina moderna. Foram anos excitantes para esses profissionais, e muito profícuos em termos de estudos e descobertas. “Quando estivermos examinando um paciente, não devemos 7
nos concentrar somente em melhorar o diagnóstico, mas precisamos pensar, sempre, em encontrar o potencial de um tratamento percutâneo”, ensinava Dotter. A brasileira Rosa Maria Paolini, pioneira da RI no Brasil, ouviu falar pela primeira vez em Dotter em 1972, quando ingressou na residência médica em radiologia, que cursou no Hospital das Clínicas de São Paulo, e logo se deixou contagiar. “Era uma coisa meio de ficção científica, como aquele filme em que um submarino em miniatura entra na circulação de uma pessoa. Era isso o que fazíamos! Os cardiologistas também passaram a se interessar e a fazer pesquisas, começamos a trabalhar também na cabeça. Até 1959, não se pensava em navegar dentro dos vasos, através de cateter-balão”, conta ela. Os avanços aconteceram rapidamente. Werner Porstmann, em Berlim; Van Andel, na Holanda; Ebelhart Zeitler, também na Alemanha, são nomes que ajudaram a “dotterizar” doenças de artérias. Em 1974, o alemão Andreas Grüentzig, também leitor e seguidor da invenção, criou o cateter-balão feito de cloreto de polivinila (resina sintética quimicamente resistente) e revolucionou ainda mais a angioplastia transluminal percutânea, expressão criada por Dotter para descrever a abertura de uma artéria bloqueada com o uso de um cateter. Grüentzig foi a personificação daqueles desbravadores. Uma foto icônica de seu trabalho mostra sua assistente construindo um cateter-balão na mesa da cozinha da casa dele. A RI foi, nos primórdios, um improviso responsável e milimetricamente calculado, pessoas à frente de seu tempo, com o nobre objetivo de dar mais qualidade de vida aos pacientes. Dotter não tardou a conquistar conterrâneos como Barry Katzen, David Kumpee e Ernie Ring. Era um momento em que prática e construção de conhecimento andavam de mãos dadas. Em 1964, Charles Dotter e Melvin P. Judkins publicaram na prestigiada revista da American Heart Association um artigo pioneiro (Circulation 1964;30: 654-70) sobre 15 tratamentos de obstruções arteriais em membros inferiores de 11 pacientes. Em 1969, Dotter usou pela primeira vez um stent intravascular. Em 1972, também foi pioneiro ao remover uma trombose com um cateter, demonstrando esse procedimento na reunião anual da Sociedade Norte-Americana de Radiologia em Chicago. Uma série de experimentos bem-sucedidos ia acontecendo. Equipamentos eram testados domesticamente e utilizados antes de se tornarem disponíveis pelos fabricantes. O primeiro stent aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), e durante muito tempo o único que a agência norte-americana de vigilância sanitária permitia que fosse utilizado em corpos humanos para uso vascular, era feito de aço inoxidável, montado sobre um cateter-balão. Foi criado em casa pelo argentino Julio Palmaz, em meados da década de 1980. Três anos mais tarde, foram criados os stents de nitinol. Um caminho 8
sem volta, como lembra outro brasileiro, o médico radiologista Luiz Maria Yordi. Começava, assim, uma importante aproximação entre a indústria de equipamentos e a área médica. Profissionais de outras áreas se interessavam pelo assunto e desenvolviam instrumentos cada vez mais adaptados às necessidades dos radiologistas intervencionistas. Era um jogo de ganha-ganha, porque os pacientes também se beneficiavam. Um exemplo clássico dessa parceria foi a criação do stent autoexpansível de malha metálica, conhecido como Wallstent, desenvolvido na década de 1980 pelo engenheiro Hans Walsten, em sua companhia suíça chamada Medinvent. Em 1973, foi fundada nos Estados Unidos a Society of Interventional Radiology (SIR), que nasceu como um clube fechado, com cerca de cem membros, e se transformou rapidamente em uma sociedade aberta, com mais de 4 mil membros. Seu objetivo, desde o início, foi “promover pesquisas que levem à melhoria do atendimento ao paciente e da qualidade de vida para perpetuar o futuro dessa especialidade”. Em 1969, no auge de seu entusiasmo pelo que ainda viria a ser descoberto no setor da RI, Charles Dotter foi diagnosticado com a doença de Hodgkin. Determinado a não deixar que nada o impedisse de apontar o caminho para o futuro da medicina, decidiu ignorar os nódulos que apareceram em suas axilas e só dois anos depois começou a se submeter a sessões de radioterapia. Respondeu bem e comemorou a seu jeito: subindo o monte Cervino, a montanha mais alta dos Alpes, na fronteira entre a Suíça e a Itália. Porém, em 1976, a doença voltou e, em 15 de fevereiro de 1985, Dotter morreu, depois de uma longa batalha. Uma coincidência infeliz: no mesmo dia, morriam também Andreas Grüentzig e sua mulher, em um acidente aéreo. E o mundo ficou, de uma vez só, sem os dois gênios da medicina do futuro. 1.2. PIONEIROS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA NO BRASIL “UM EXÉRCITO DE CRIATIVOS E DETERMINADOS” O regime de governo militar, instalado em 1964, criou enormes dificuldades para a importação. “O país tinha um programa de proteção à indústria nacional que vetava a maioria das compras externas”, escreve o jornalista Carlos Araújo (do Comexblog), especialista em comércio exterior. Quem se aventurasse tinha que enfrentar um exaustivo pro9
cesso de preenchimento de montes de formulários para dar entrada nos pedidos e aguardar o carimbo. Na maioria das vezes, recebia um “não” como resposta. Era um cenário desanimador para a aurora da RI, que começava a despontar por aqui nos anos 1980. Ocorre que o Brasil não fabricava os equipamentos de que os radiologistas intervencionistas brasileiros precisavam. Era preciso, assim, trazê-los dos Estados Unidos, muita coisa também da Europa e enfrentar a burocracia dos carimbos. O jeito era contornar a situação. Quando algum conhecido da turma dos médicos viajava, levava na bagagem uma lista de pedidos. E, na viagem de volta, ficava de dedos cruzados ao passar pela Alfândega, para que não apreendessem o material, o que acontecia com frequência desalentadora. Em certa ocasião, na volta de uma viagem à Disney, Ênio César Pereira, médico radiologista que se formou no Paraná na década de 1950, teve sua pequena maleta cheia de cateteres perdida para uma equipe alfandegária inclemente. Voltou para casa sem os equipamentos e com a pecha de contrabandista. Tempos duros. Por outro lado, esse início nada fácil alimentou o poder criativo daquele exército de desbravadores. Com obstinação, pesquisa e engenhosidade, linhas elásticas, por exemplo, serviam para amarrar um balão de látex na ponta de um cateter de linfografia após cortar a agulha da ponta desse cateter, virando um poderoso instrumento para a oclusão temporária ou permanente de um vaso, na falta do material fornecido pela indústria estrangeira. O procedimento era realizado através da punção direta da artéria carótida comum devido ao curto comprimento do cateter adaptado, para tratamento de fístula carotídeo-cavernosa. José Maria Modenesi, neurointervencionista, era mestre nessas invenções, tanto que ganhou o apelido de MacGyver, o agente secreto da série de televisão conhecido por ser solucionador de problemas Nestor Kisilevzky, segundo presidente da Sobrice, lembra-se da primeira vez em que um técnico de raios X levou-o à rua Santa Ifigênia, no Centro de São Paulo, famosa por vender produtos eletrônicos. Kisilevzky passou a frequentar o local, onde comprava cabos elétricos, tirava o cobre de dentro e, com o plástico da cobertura, fazia um cateter. Fato é que, mesmo com dificuldades técnicas, aquela turma de jovens médicos sabia que estava diante de um campo revolucionário da medicina, com muito espaço para pesquisas e para o crescimento. Muitos saíam do país, passavam um tempo estudando fora e voltavam, trazendo novidades que os colegas gostavam de ouvir e anotar com enorme interesse. Um nome que imediatamente vem à memória quando se quer lembrar dessa fase inicial é o de Renan Uflacker, patrono da Sobrice e pai 10
da RI do Brasil. Há também quem dedique um lugar no pódio de pioneiros a Sérgio Santos Lima, outro inovador, Ênio Cesar Pereira e Luiz Maria Yordi. Não foram poucos, portanto, os arautos da novidade, que encontrou, aqui no Brasil, um campo fértil para se alastrar. O que mais estimulava era a qualidade de vida que os médicos conseguiam dar aos pacientes. Outro fator que animava era poder examinar o corpo humano, por dentro, sem ter que fazer uma incisão. Cateteres, balões, molas, partículas de esponjas e stents passaram a ser as ferramentas que possibilitavam as intervenções. E, mesmo quando não precisavam improvisar as ferramentas, ainda assim alguns médicos faziam algumas modificações manuais para melhorar ainda mais o equipamento, que já era bom. “Quando o Sérgio [Santos Lima] voltou dos Estados Unidos, começamos a trabalhar com o cateter BD. A dificuldade é que ele não vinha pré-moldado; isso tinha que ser feito por nós, usando a chama de uma vela, com água quente e água gelada, para manter a forma dele. O material era polietileno, e o cateter vinha num rolo, peça única”, conta Ênio Pereira. E, assim, de jeitinho em jeitinho, a turma ia se abrindo para o novo mundo, que parecia cada vez mais “atraente, instigante, encantador”, nas palavras de Rosa Paolini, e oferecia uma gama variada de soluções para cada tipo de mal. “Se o paciente tinha um problema de pressão arterial elevada, causada por um problema renal, era só dilatar um vaso e estava resolvido. Se ele tinha insuficiência hepática ou varizes 11 Rolo de cateter de polietileno, furadores (hole punch), manopla dos furadores, adaptadores luerlock de plástico e de metal, ferramenta para moldar a ponta do cateter, torneiras de metal de duas vias e modelador de ponta de cateter. Foto de arquivo de Henrique Salas Martin.
de esôfago, um stent, desviando o sangue da veia porta para a veia cava, era o suficiente, muitas vezes, para salvá-lo, descomprimindo o sangue represado nas varizes. No caso de embolia pulmonar, um filtro acabava com o problema”, conta Ênio Pereira. E pensar que, até a década de 1950, ou seja, pouco mais de duas décadas antes, o acesso a artérias e veias era realizado apenas por dissecção dos tecidos moles, para manipulação e punção direta do vaso sob visão direta com o cateter angiográfico. Uma mudança radical, sobretudo para os pacientes, foi a técnica desenvolvida pelo sueco Sven Ivar Seldinger. Essa técnica simples e, ao mesmo tempo, engenhosa é utilizada até hoje e leva o nome de seu criador. Ela permite o acesso inicial de um vaso sanguíneo por uma agulha, seguido da passagem de um fio-guia metálico. A agulha é retirada e o cateter é introduzido sobre o fio-guia — Técnica de Seldinger. Para acompanhar tantas inovações, os médicos não podiam deixar de estudar, precisavam se atualizar quase diariamente nessa época. “Aprendíamos muito mais nas revistas do que com pessoas. E eram revistas americanas ou europeias. Até mais ou menos 1976, a grande preocupação em congressos, aulas e conferências era apenas aprimorar técnicas para fazer a radiologia convencional. Ou o médico lia muito, ou ia trabalhar no interior, num lugar aonde não chegasse informação. Porque nas grandes cidades a gente ficava ansioso. Eu abria a revista, lia sobre um novo procedimento e pensava: ‘Por que eu não posso fazer isso também? Onde é que vou aprender isso?’”, lembra Ênio Pereira. A experiência de José Maria Modenesi, também um veterano da profissão, era de acumular informação e trabalhar nos casos a partir do conhecimento que trazia da universidade: “Eu tinha treinamento de base, conhecimento de anatomia, sabia como fazer angiografia, como tratar com o material que se tinha. À medida que novos materiais iam surgindo, eu ia melhorando a técnica. Ou íamos a um serviço que tinha uma demanda maior, ou colegas mais experientes vinham a nós. A diferença é que hoje há laboratórios com peças muito diversificadas, que se assemelham ao corpo humano”, explica. As peças são adequadas a situações anatômicas e clínicas específicas. Lado a lado com essas descobertas, tão entusiasmadas quanto os profissionais que estavam na linha de frente, as empresas médicas começaram a perceber que aquele setor era um filão. E passaram a trabalhar em parceria com os médicos, fazendo pesquisas e empregando todos os esforços para saber quais tipos de equipamentos poderiam ajudar a tornar as intervenções cada vez mais bem-sucedidas. “O papel da indústria é desenvolver a tecnologia, que, segundo argumentam, tem um custo, e esse custo tem que ser amortizado depois, pela venda do material que as fábricas produzem. Sempre houve, 12
então, o interesse das empresas em produzir os equipamentos de que necessitávamos. E isso, é claro, contribuiu para a evolução”, diz Luiz Maria Yordi, radiologista de Porto Alegre. Por volta dos anos 1990, quando a onda de entusiasmo e descobertas aqui no Brasil crescia entre os radiologistas intervencionistas, surgiu um desafio, no seio da própria classe médica, que começou a incomodar. Muitos profissionais passaram a criticar a inovação e os avanços, sobretudo os cirurgiões vasculares e neurocirurgiões, cujas especialidades iriam, de certa maneira, rivalizar com os novos procedimentos, menos invasivos e que traziam mais comodidade aos pacientes. Os mais conservadores começaram a dizer que era uma novidade temporária, insustentável. “Foi uma década de muita tensão. A cirurgia vascular estava dividida, e, do lado dos radiologistas intervencionistas, também havia aqueles corporativistas, que achavam que, por terem sido pioneiros, teriam exclusividade na execução dos procedimentos intervencionistas. E não admitiam dividir o campo com ninguém”, conta Carlos Abath, quarto presidente da Sobrice. O caminho percorrido, da angiografia à angioplastia, do cateterismo de Seldinger à embolização de hemorragia provocada por varizes esofágicas, era rápido e fantástico demais para ser absorvido por quem não admitia mudanças, quer por medo de perder espaço, quer por comodismo. Certo dia, em uma conferência no Hospital das Clínicas, em São Paulo, um professor chegou a fazer uma profecia com palavras que ficaram marcadas nos jovens que acompanhavam a aula. Para ele, o cateterismo tinha um lugar garantido na história da medicina: a lata de lixo. Errou feio. Como contraponto a essa visão conservadora, o Serviço de Radiologia da Med Imagem, no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, idealizado por Dr. Sérgio Santos Lima, criou o Departamento de Radiologia Intervencionista, convidando o Dr. Renan Uflacker para coordená-lo e desenvolvê-lo. Com competência, inovação e sensibilidade política, Uflacker consolidou e difundiu a especialidade, desenvolvendo novas técnicas e treinando outros profissionais, por meio de programa formal de estágio na emergente especialidade médica. Voltando às suas regiões de origem, essas iniciativas foram replicadas, promovendo a expansão da intervenção em diversas partes do país. Foi assim com Carlos Abath, que, após concluir sua formação na Med Imagem com Uflacker, em 1990, começou a introduzir a especialidade no Nordeste, tendo o mestre como modelo e incentivador. Abath treinou jovens interessados nesse novo e promissor campo de atuação, agregou-os em um time e fundou a Angiorad, centro de assistência e treinamento em RI, em Recife, que se tornou referência nacional na especialidade. 13
Quando, em 1992, foi inaugurado o Serviço de Radiologia Intervencionista pelo médico Márcio Sampaio, em um dos pavilhões históricos do prédio da Beneficência Portuguesa, no Rio de Janeiro, rapidamente a notícia se alastrou. Henrique Salas Martin, radiologista intervencionista do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que começou a fazer lá sua residência, traz na memória o entusiasmo que tomava conta dos profissionais, trabalhando um campo tão novo e com tanta demanda. Praticamente todas as arteriografias da cidade eram feitas por eles. Mas, se, para alguns cirurgiões, o avanço da RI gerou perda e ressentimento, outros decidiram enfrentar o novo, estudar e entrar para a especialidade. Foi a hora de a roda girar. A preocupação dos radiologistas que já estavam na estrada passou a ser a de marcar território; afinal, eles tinham chegado primeiro. Nos anos 1980, o procedimento intervencionista ainda era livre, não havia título de especialista, ou seja, não havia restrições para quem quisesse fazer. Os radiologistas intervencionistas tinham um agravante: a especialidade era pouco conhecida, às vezes até mesmo menosprezada pelos pares. Valéria Cardoso de Souza, quinta presidenta da Sobrice, lembra-se de que, na faculdade, quando decidiu sair da cirurgia e optar pela radiologia, ouviu muito a pergunta: “Ué, desistiu de fazer medicina?”. Nessa ocasião, ela compreendeu o tamanho do desafio que a especialidade tinha pela frente. Os pacientes, no entanto, passavam ao largo do debate. Para eles, era sempre fácil entender os benefícios da RI. “Mostrávamos que não era necessário operar, abrir barriga, e que a alta era em dois ou três dias. Aí, era fácil de eles entenderem e gostarem da nossa conversa, eles davam a permissão”, lembra-se Ênio Pereira. Em alguns momentos, porém, as especialidades convergiam. Era o melhor dos mundos. Quem conta é Henrique Salas Martin, usando novamente o caso da Beneficência Portuguesa, do Rio de Janeiro, como exemplo. A apenas um lance de escada do andar onde eram feitas as intervenções de angioplastia, funcionava o setor das cirurgias. E ali as especialidades começaram a trabalhar juntas, desenvolvendo outras técnicas, avançando também nos diagnósticos. Quem mais lucrou, é claro, foram os pacientes. O conflito permeou e permeia ainda a classe dos intervencionistas, mas vem ganhando contornos diferentes, mais amenos, à medida que o tempo vem mostrando que, no fim das contas, há espaço para todos. O foco deve ser a melhor qualidade de vida do paciente. “A Radiologia Intervencionista é uma especialidade que oferece coisas que beneficiam o paciente, e que não está tirando o paciente do médico A, B ou C. Está contribuindo para que esse médico ofereça a seu paciente um tratamento de melhor qualidade. No caso dos pa14
cientes oncológicos, por exemplo, temos procedimentos que podem oferecer uma sobrevida melhor, uma qualidade de vida melhor, com uma intervenção menos invasiva do que uma cirurgia. Esse é o foco principal”, lembra Silvio Cavazzola, radiologista intervencionista e ex-diretor da Sobrice. Uma conclusão que se pode tirar dessa história de sucesso é que a especialidade de RI precisa ser mais conhecida. A outra conclusão é que, para crescer, é preciso agregar outros profissionais. Quem sabe até, como sugere Valéria Souza, que se exija que o estudante de RI tenha uma especialidade também em clínica cirúrgica. O debate, que segue aberto, está na raiz da criação da Sobrice, em 1997. 1.3. CLUBE DOS ANGIOGRAFISTAS PIONEIRISMO, JUVENTUDE, TECNOLOGIA E AMIZADE A história da RI, no Brasil, ganhou um capítulo original e instigante em meados dos anos 1970, quando começaram a retornar ao país alguns profissionais que fizeram especialização no exterior. Um deles era Sérgio Santos Lima, que trouxe dos Estados Unidos a ideia de um espaço para estudo e troca de experiências entre os angiografistas brasileiros. Assim como no modelo americano, esse espaço foi denominado clube. A proposta era de um lugar informal, livre da rigidez da academia, dos sindicatos e das demais associações profissionais, e longe da política. Ninguém queria regulamento, direção, chefe, nem presidente. O conceito principal estava no nome “clube”, que, por definição, é um polo de reunião de pessoas com interesses comuns, sejam eles profissionais, esportivos ou recreativos. No caso do Clube dos Angiografistas, o futuro mostraria ser possível reunir quase tudo isso, além de criar fortes laços de amizade. Entre os que aderiram a essa proposta estavam, além do próprio Sérgio Santos Lima, outros que tiveram participação relevante no desenvolvimento da RI no Brasil: de São Paulo, Ronie Piske, Eduardo Noda Kihara e Rosa Paolini; de Blumenau, Ênio Cesar Pereira; de Porto Alegre, Renan Uflacker, Luiz Maria Yordi, Carlos Feldman, Carlos Horácio Genro e Flávio Aesse; de Curitiba, Dante Romano e Sérgio Mazer; de Brasília, Marcos Vinicius Ramos; do Rio de Janeiro, Márcio Sampaio e Luiz Alberto Moreira de Souza; e, de Recife, Milton Nóbrega. Esse grupo tinha em comum o entusiasmo pelos avanços vertiginosos em técnicas e instrumentos que tornavam possível viajar pelo 15
corpo humano. “Era como ser navegador no século XV”, compara Rosa Paolini, que até 1986 foi a única mulher a participar do Clube. Todos os dias eles saíam dispostos a descobrir algo novo, embora, paradoxalmente, nos primeiros tempos do Clube a maioria das novidades não estivesse acessível no cotidiano profissional brasileiro, no qual a radiologia diagnóstica e a angiografia reinavam ainda em filmes grandes e pesados. Era esse o material compartilhado nos encontros do Clube, levado Brasil afora em malas pesadíssimas, a maioria ainda sem rodinhas. Nada que atrapalhasse os planos desses profissionais, que em sua maioria eram jovens, alguns ainda residentes. Poucos dos primeiros participantes do Clube tinham mais de 35 anos. Com o mesmo ímpeto, eles desbravavam as fronteiras da radiologia e viajavam por vários estados. As reuniões eram itinerantes e não tinham periodicidade fixa. Nas quase duas décadas em que se manteve ativo, o Clube realizou pelo menos uma reunião anual, porém em alguns anos chegaram a acontecer quatro encontros. Clube dos AngiograĊstas, Centro de Convenções de Pernambuco, 1981. Renan UČacker apresentando casos com radiograĊas (sobre a mesa) no negatoscópio. Milton Nóbrega (perto de Renan), Sérgio Santos Lima (camisa azul e braços cruzados), Glerystane Holanda (canto esquerdo). 16
A organização envolvia uma logística complexa de deslocamento. Para voar entre capitais, havia uma oferta razoável de horários, principalmente entre Rio de Janeiro e São Paulo, com a Ponte Aérea inaugurada em 1959. Porém, do interior para as capitais, o mesmo não acontecia. Era mais fácil viajar de Porto Alegre a Recife do que do interior de São Paulo para a capital, lembra Crescêncio Centola, terceiro presidente da Sobrice. Apesar das dificuldades, os encontros não se restringiam às capitais. Houve reuniões em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Recife, mas também em Itapema (SC) e Atibaia (SP), por exemplo. Como a informalidade reinava, não existem atas, listas de presença ou documentos que permitam reconstituir, rigorosa e detalhadamente, as discussões que aconteceram naqueles tempos pioneiros. E é exatamente aí que reside a grande riqueza dessa história, que pode ser comparada a um mosaico composto das lembranças de mais de uma geração profissional, por vezes com versões diversas, porém com eixos comuns importantes. O eixo comum mais forte diz respeito a um princípio sagrado do Clube, explicitado por Nestor Kizilevzky: “A ideia era apresentar sempre casos que tiveram alguma complicação, alguma dificuldade que a pessoa não soube resolver, ou que resolveu de maneira especialmente criativa.” Em resumo, não era permitido dar aula. Nem o gaúcho Renan Uflacker, que acabara de voltar dos Estados Unidos depois de um período na Noruega, era reverenciado por todos e se tornaria patrono da Sobrice, tinha essa postura. Aconteciam discussões e até algumas brigas, mas o objetivo era aprimorar a prática, fazer com que todos aprendessem. Aos olhos de hoje, quando qualquer estudante do Ensino Fundamental tem à disposição um mundo de informações e todos os recursos para produzir lindas apresentações, parece incrível o fascínio que as radiografias produziam nos participantes do Clube. Na época, entretanto, eles valorizavam o que se considerava “uma coisa muito raiz”, na definição de Henrique Salas Martin, radiologista intervencionista com atuação no Inca e em hospitais privados. Nos primeiros encontros, o número de participantes era pequeno, a ponto de permitir que as radiografias fossem exibidas no negatoscópio, em tamanho real, portanto. Depois, as reuniões cresceram, e entrou em cena o retroprojetor, que permitia exibir as imagens ampliadas. Mais tarde, foi a vez dos projetores de slides, que viabilizavam apresentações mais dinâmicas, coloridas. Mas duraram pouco, por um motivo simples, como relata Carlos Abath: esse recurso estimulava um formato de aula, com menos interação, e ainda permitia ao apresentador mostrar apenas o que lhe interessasse, evitando expor erros e fragilidades. “Era contra o espírito da coisa. A gente queria ver na radiografia, no bruto, o que havia sido feito, onde poderia melhorar, o que não havia funcionado. Era o mundo real que nos interessava”, resume Abath. 17
Valéria Cardoso de Souza lembra que sua função principal nas reuniões do Clube era evitar as apresentações-aula. “Eu era o coronel, para botar ordem na casa”, conta. “Nós, médicos, somos muito vaidosos, sempre achamos que o nosso caso é o mais importante de todos. Então lá ia eu: ‘Aqui não é lugar de aula; se for aula, não vai apresentar.’” Outro eixo comum entre os relatos é que eram reuniões de trabalho intenso. Normalmente, começavam na tarde de sexta-feira, por volta de 14h, eram interrompidas às 20h para o jantar, que se estendia até 22h, e depois todos se recolhiam. No dia seguinte, os trabalhos eram retomados às 8h e encerravam-se às 12h, quando cada um voltava para sua cidade. Temperando essa rotina severa, há quem destaque o lado divertido dos encontros. Márcio Sampaio, que se especializou em neurorradiologia intervencionista, nunca se esqueceu do primeiro encontro de que participou, em Atibaia. “A maioria de bermuda, tudo muito informal. Cada um pagava sua despesa, e havia espaço para uma cervejinha depois de tanto trabalho.” Feliciano Azevedo, chefe do Setor de Radiologia Intervencionista do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também estreou no Clube nes18 Encartes do I e do II Curso de Atualização em Radiologia Vascular e Intervencionista, realizados em 1984 e 1986, respectivamente.
se encontro de Atibaia, e lembra do grupo sentado à beira da piscina, olhando radiografias contra o sol. O interesse pelo Clube foi crescendo no mesmo ritmo dos avanços da RI no mundo e no Brasil. Ao mesmo tempo, a realidade brasileira mudava, com ventos de renovação, que resultaram na Constituinte de 1988 e no restabelecimento das eleições para presidente em 1989, com mudanças graduais na economia, que facilitaram a importação de insumos. Por esse motivo, a década de 1980 ampliou muito o horizonte dos navegadores, para manter a imagem de Rosa Paolini. O ano 1984 foi um marco desse novo momento. O Clube dos Angiografistas organizou o primeiro Curso de Atualização em Radiologia Vascular e Intervencionista, com participação de convidados do Brasil e do exterior. O hotel Brasilton, no centro de São Paulo, foi o local escolhido para o curso, que atraiu não só radiologistas, mas também cirurgiões vasculares e clínicos, e contou com uma grande novidade: o patrocínio de firmas representantes de aparelhos radiológicos, de contrastes e de material de cateterismo e intervenção. Nascia ali uma parceria entre os profissionais brasileiros de RI e as empresas fabricantes de equipamentos, instrumentos e insumos, que se estreitaria ao longo do tempo, por ser fundamental para uma especialidade cuja evolução depende de acesso a tecnologias de ponta. A partir de então, as empresas passaram a apoiar os encontros, custeando passagem e hospedagem para os especialistas convidados, almoços e jantares de confraternização. Inaugurou-se, nesse período, o modelo de patrocínio que vigora atualmente nos congressos, evidentemente em outra escala. O Curso de Atualização teve mais três edições — em 1986, 1988 e 1990 —, realizadas no hotel Ca’d’Oro, em São Paulo, com crescente interesse e a presença de grandes nomes da radiologia mundial. Vieram ao Brasil para esses encontros figuras como os americanos Mark Wholey, Thomas Sos, Erich Lang, Harold Coons e Charles Tegmeyer, os franceses Jacques Theron e Pierre Laujanias, e o uruguaio Fernando Viñuela. Muitos brasileiros também participaram como palestrantes: Pedro Puech Leão, Francisco Sampaio, Shigemituso Arie, Decio Mion, Antonio Marmo Lucon, além de membros do Clube, como Renan Uflacker, Ênio Cesar Pereira e Ronie Piske. Em meados dos anos 1980, as reuniões do Clube começaram a acontecer a intervalos maiores, e o número de participantes reduziu. Um dos motivos foi a migração de profissionais de radiologia para outras especialidades baseadas em equipamentos de imagem, como a tomografia, a ultrassonografia e a ressonância magnética. Um pouco mais tarde, já na virada dos anos 1990, figuras fundamentais para as atividades do Clube deixaram o Brasil. Rosa Paolini foi para os Estados Unidos em 1988, e cinco anos depois, em 1993, Renan Uflacker seguiu 19
o mesmo caminho. Ronie Piske, que viria a ser o primeiro presidente da Sobrice, assumiu a Neurointervenção da Med Imagem, e Guilherme Mourão ficou responsável pela Radiologia Intervencionista. A segunda geração do Clube já começava a pensar em uma estrutura profissional mais organizada, por meio da qual se conseguisse firmar a RI como especialidade conhecida pelos potenciais pacientes e respeitada pelos demais profissionais da medicina. Ainda era um sentimento difuso. Poucos consideravam fundamental mudar o padrão de organização. Pelo menos no início, a maioria preferia manter o espírito de informalidade e colaboração do Clube, principalmente no que se refere a compartilhar experiências desafiadoras. Valéria Cardoso de Souza fez parte da ala mais pragmática. “O Clube era um grupo de amigos. Era ótimo. Mas um grupo de amigos não move o mundo, não move a especialidade.” Luiz Maria Yordi tinha opinião distinta e se lembra de um “mal-estar” nesse período. “Estávamos tão bem no Clube, era difícil pensar em uma coisa formal, com eleições, candidatos, brigas internas. Mas faz parte.” Rosa Paolini pondera: “Aconteceu como acontece com muitas coisas na vida. Os interesses e as necessidades mudaram. Além do mais, tinha tanta gente que não era mais possível ser tão informal.” Carlos Abath considera que toda data é, de certa forma, uma convenção. Isso porque são poucas as situações em que a realidade muda de um dia para outro. O normal é haver uma transição. Silvio Cavazzola participou do momento da virada. Em 1996, foi convidado pela primeira vez para uma reunião do Clube, que se realizaria em Recife. Nessa reunião, surgiu a ideia de fazer um novo encontro no ano seguinte, período em que ganhou corpo a discussão sobre a criação de uma Sociedade de Radiologia Intervencionista. A fundação aconteceria em 1997, em Gramado (RS), como o leitor verá no capítulo 2. Não por saudosismo, mas por vontade de resgatar o espaço de crítica livre e respeitosa que o Clube representava, surgiu a ideia de criar, nos congressos anuais da Sobrice, uma sessão denominada “Meu pior pesadelo”. O nome bem-humorado procura desmistificar o erro. “A gente aprende mais com o erro do que com o acerto”, diz Cavazzola, lembrando-se de um colega argentino que lhe disse certa vez: “Ou sou muito azarado, ou sou muito ruim. Porque tenho um monte de complicações, e não vejo ninguém falar que tem.” A sessão “Meu pior pesadelo” estreou em 2016, ano em que Silvio Cavazola foi presidente do Congresso da Sobrice. O espírito do Clube permanece vivo. 20
1.4 RENAN UFLACKER CIÊNCIA, RIGOR E ÉTICA PARA CONSOLIDAR A RI Renan Uflacker costumava repetir, como um mantra, que “a Radiologia Intervencionista é o segredo mais bem guardado da medicina”, para resumir o desafio de tornar conhecida a especialidade. Desde que voltou ao Brasil, após cursar especializações na Noruega e nos Estados Unidos, Uflacker dedicou-se com tenacidade de missionário a acabar com tal segredo. Não deixava escapar um congresso, uma oportunidade de publicação, dava aulas, foi grande inspirador do Clube dos Angiografistas, no qual, embora já fosse considerado um gênio, compartilhava com generosidade e simplicidade seu conhecimento. Uflacker trabalhou em praticamente todos os campos da RI. Suas principais áreas de atuação e produção científica se concentraram nas doenças hepáticas e hipertensão porta, nas arteriopatias vasculares periféricas, nas endopróteses aórticas e nos stents carotídeos. Foi um pioneiro apaixonado pela RI e fez de seu desenvolvimento e divulgação uma razão de vida. Por essa atuação e por sua impressionante produção científica, Uflacker é considerado não só o pai da RI brasileira, mas também o “pai” de muitos profissionais que descobriram a RI com ele. Valéria Cardoso de Souza queria ser cirurgiã; Marcelo Guimarães pretendia seguir carreira de cirurgião plástico. Ambos mudaram de rumo depois de assistir a suas aulas — Valéria, em um congresso de radiologia; Guimarães, quando foi seu aluno na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Outros, como Silvio Cavazzola, descobriram a especialidade com pessoas próximas a Uflacker — no caso, Jurandir Bettio e João Rubião Hoeffel Filho. “Ele foi o maior professor que conheci em toda a minha vida”, diz Valéria, que destaca também sua extraordinária capacidade de publicação. Ela lembra que, quando terminava um procedimento que não fosse habitual, ele se sentava com a máquina Olivetti que fora de seu pai, fazia o registro e guardava o que, mais tarde, poderia ser um caso a apresentar em um congresso, um artigo, ou mesmo o embrião de um livro. Guimarães, que foi levado por Uflacker para a Medical University of South Carolina (MUSC), nos Estados Unidos, atualmente ocupa o cargo de diretor que pertenceu a ele e considera-o de fato seu pai profissional e intelectual. “Ele me levava para congressos, me apresentava aos colegas. Fui introduzido no mundo da intervenção de maneira muito rápida. Eu não teria tido as mesmas oportunidades sem essa vivência”, lembra. Essa generosidade convivia com um extremo rigor profissional e científico. “Era muito exigente”, lembra Guimarães. “Eu podia fazer 21
chover para cima, ter o caso mais maravilhoso durante meu treinamento, ele dizia apenas: ‘É, está razoável.’” Rosa Paolini, que na grande família dos radiologistas intervencionistas pode ser considerada irmã de Uflacker — pela geração e pela grande amizade que existia entre os dois —, recorda-se dele como uma pessoa muito séria. “Dificilmente brincava, mas tinha tiradas muito boas”, diz Rosa, que foi a primeira homenageada com o prêmio Renan Uflacker, criado e instituído pela Sobrice, em 2010. A paixão pela RI era tamanha que Uflacker se tornou personagem de uma passagem cômica no 1o Adventure Interventional Radiology, curso que reuniu alguns dos maiores especialistas em RI do mundo. O encontro aconteceu em Manaus, no hotel Ariaú, em 2002. Uflacker estava fazendo uma apresentação quando alguns macacos entraram no centro de convenções e atacaram a mesa preparada para o coffee O gaúcho Renan UČacker (1949-2011), patrono da Sobrice, é considerado o pai da RI no Brasil. Construiu uma carreira que pode ser descrita com números impressionantes: 63 capítulos de livros, 114 artigos cientíĊcos, 11 livros e teses, 20 patentes registradas, 56 projetos de pesquisa, 86 apresentações em eventos cientíĊcos, 492 conferências como palestrante convidado. Tanto quanto por esses números, UČacker é reconhecido por ter formado toda uma geração de radiologistas intervencionistas. Graduou-se em medicina pela UFRGS, fez residência em radiologia no hospital Dr. Lazzarotto, viajando em seguida para a Noruega, onde cursou o treinamento em radiologia cardiovascular. Depois, estagiou no Shadyside Hospital, da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, Estados Unidos. De volta a Porto Alegre (RS), assumiu a cheĊa da Radiologia Intervencionista no Hospital Lazzaroto e no Hospital Universitário da PUC até 1985, quando se estabeleceu em São Paulo para coordenar o Serviço de Radiologia Intervencionista da Med Imagem, no Hospital da BeneĊcência Portuguesa. Organizou diversos encontros e cursos de RI, sendo o principal articulador da criação e do desenvolvimento do Clube dos AngiograĊstas, que deu origem à Sobrice. Em 1993, transferiu-se para os Estados Unidos e tornou-se professor e diretor do Departamento de Radiologia Vascular e Intervencionista da Medical University of South Carolina. Morreu precocemente com 62 anos, vítima de encefalopatia degenerativa, causada por um príon. Renan UČacker (1949-2011) Patrono da Sobrice 22
break. Tão concentrado estava em sua fala sobre o uso de stent-grafts para correção de aneurisma da aorta abdominal, que o auditório veio abaixo com gritos e gargalhadas, e ele continuou falando, como se nada estivesse acontecendo. “Ele não percebeu nada”, lembra Feliciano Azevedo, testemunha dessa confusão. Azevedo lembra também que, embora a paixão pela RI fosse imensa, estava longe de ser a única. Fotografia, história, cinema, viagens, física, astronomia, política e economia faziam parte do enorme leque de interesses de Uflacker, que não foi seu professor, mas cujo nome usa para expressar a gratidão que tem por Rubens Ribeiro, da UFRJ, a quem se refere como “meu Uflacker carioca”. Além da admiração profissional, uma lembrança recorrente de quem conviveu de perto com Uflacker é seu amor à família. Os procedimentos feitos durante o dia de trabalho eram sempre comentados na mesa de jantar, como relata André Uflacker. Esse era um hábito de que nem seu pai, nem sua mãe, Helena, jamais abriram mão, assim como comer fora nos fins de semana, visitar museus, passear por Charleston, para onde a família se mudou em 1993, viajar. “Durante a semana, nós só estávamos com ele à noite. Mas, nos fins de semana, ele aproveitava quando eu e minha irmã estávamos na casa de algum amigo para estudar e escrever seus artigos. Fora isso, ficávamos juntos”, lembra. Mesmo em família, no entanto, as paixões se misturavam. André e Alice Uflacker cresceram ouvindo casos de como o pai resolvera situações difíceis em seu trabalho como radiologista intervencionista. Eram relatos entusiasmados, cheios de detalhes que eles não compreendiam, porém sabiam ser importantes. André, hoje também radiologista intervencionista na MUSC, lembra-se particularmente do encanto de Uflacker com o surgimento dos microcateteres. Ele era ainda adolescente, nos anos 1990, quando soube pelo pai que um paciente com sangramento intestinal grave havia sido salvo pela possibilidade de usar apenas a vascularização colateral do abdômen — algo impossível com os cateteres usados na angiografia. A paixão de Uflacker por sua profissão era tamanha que seus filhos, ainda pequenos, conseguiam perceber que o pai estava compartilhando com eles algo precioso. André herdou do pai a habilidade manual e o interesse por aviões, o que o fez gostar de aeromodelismo no início da adolescência — e é característica fundamental para atuar em RI. Dos gostos paternos, o único que definitivamente não o capturou foi o de restaurar carros antigos e raros, que começou a colecionar em 1998, quando comprou um Alfa Romeo branco. Quando morreu, Uflacker estava restaurando o quinto Alfa Romeo, comprado no Brasil. Herdou também, e considera que é sua herança mais importante, uma enorme preocupação 23
ética no exercício da profissão e na vida. “Esse é o maior tesouro que ele deixou para mim e para minha irmã” (a psiquiatra geriátrica Alice Uflacker). Marcelo Guimarães, 24 anos mais moço que seu pai intelectual, não se esquece do convívio entre as duas famílias a partir de 2008, quando se mudou para Charleston com a esposa e os dois filhos pequenos. Os laços ali formados não se desfizeram com a morte de Uflacker e pesaram na decisão de Guimarães de convidar André, que concluíra o treinamento na Universidade de Virginia, para voltar a Charleston, em 2019. “Não tive a oportunidade de retribuir tudo o que ele fez por mim. É o mínimo que eu podia fazer, trazê-lo de volta e permitir que ele desse continuidade ao trabalho do pai”, justifica. Em 2011, Renan Uflacker contraiu a doença de príon — grupo de doenças neurodegerativas raras e sempre fatais, causadas por proteínas modificadas de animais. Tinha apenas 62 anos e muitos planos. Seu obituário americano, escrito pelo radiologista J. Baume Selby, da MUSC, é um bom resumo de quem é o patrono da Sobrice. O texto recapitula sua carreira, lembrando que ele levou consigo para os Estados Unidos o gosto por transmitir conhecimento e formar novos radiologistas intervencionistas, o que resultou na criação do primeiro Conselho de Acreditação para Treinamento Médico de Graduação para Médicos, na MUSC. Destaca o Atlas de anatomia vascular, traduzido em inúmeras línguas, inclusive o chinês, e credita a Uflacker o fato de a MUSC ter se tornado um centro pioneiro de uso de stent-grafts na correção de aneurismas de aorta abdominal nos anos 1990. Nesse período, lembra Selby, era comum vê-lo fazer uma intervenção desse tipo em Charleston e, em seguida, embarcar para fazer o mesmo procedimento no Brasil dois dias depois. Tanto quanto essa trajetória brilhante, Selby destaca que a família Uflacker passou a fazer parte da vida de Charleston. “Existem muiRenan UČacker assistindo a uma palestra no 3º Corso di Aggiornamento in AngiograĊa Diagnostica e Terapeutica (Carvat), realizado entre os dias 25 e 29 de outubro de 1976, em Roma, Itália. 24
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