nos concentrar somente em melhorar o diagnóstico, mas precisamos pensar, sempre, em encontrar o potencial de um tratamento percutâneo”, ensinava Dotter. A brasileira Rosa Maria Paolini, pioneira da RI no Brasil, ouviu falar pela primeira vez em Dotter em 1972, quando ingressou na residência médica em radiologia, que cursou no Hospital das Clínicas de São Paulo, e logo se deixou contagiar. “Era uma coisa meio de ficção científica, como aquele filme em que um submarino em miniatura entra na circulação de uma pessoa. Era isso o que fazíamos! Os cardiologistas também passaram a se interessar e a fazer pesquisas, começamos a trabalhar também na cabeça. Até 1959, não se pensava em navegar dentro dos vasos, através de cateter-balão”, conta ela. Os avanços aconteceram rapidamente. Werner Porstmann, em Berlim; Van Andel, na Holanda; Ebelhart Zeitler, também na Alemanha, são nomes que ajudaram a “dotterizar” doenças de artérias. Em 1974, o alemão Andreas Grüentzig, também leitor e seguidor da invenção, criou o cateter-balão feito de cloreto de polivinila (resina sintética quimicamente resistente) e revolucionou ainda mais a angioplastia transluminal percutânea, expressão criada por Dotter para descrever a abertura de uma artéria bloqueada com o uso de um cateter. Grüentzig foi a personificação daqueles desbravadores. Uma foto icônica de seu trabalho mostra sua assistente construindo um cateter-balão na mesa da cozinha da casa dele. A RI foi, nos primórdios, um improviso responsável e milimetricamente calculado, pessoas à frente de seu tempo, com o nobre objetivo de dar mais qualidade de vida aos pacientes. Dotter não tardou a conquistar conterrâneos como Barry Katzen, David Kumpee e Ernie Ring. Era um momento em que prática e construção de conhecimento andavam de mãos dadas. Em 1964, Charles Dotter e Melvin P. Judkins publicaram na prestigiada revista da American Heart Association um artigo pioneiro (Circulation 1964;30: 654-70) sobre 15 tratamentos de obstruções arteriais em membros inferiores de 11 pacientes. Em 1969, Dotter usou pela primeira vez um stent intravascular. Em 1972, também foi pioneiro ao remover uma trombose com um cateter, demonstrando esse procedimento na reunião anual da Sociedade Norte-Americana de Radiologia em Chicago. Uma série de experimentos bem-sucedidos ia acontecendo. Equipamentos eram testados domesticamente e utilizados antes de se tornarem disponíveis pelos fabricantes. O primeiro stent aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), e durante muito tempo o único que a agência norte-americana de vigilância sanitária permitia que fosse utilizado em corpos humanos para uso vascular, era feito de aço inoxidável, montado sobre um cateter-balão. Foi criado em casa pelo argentino Julio Palmaz, em meados da década de 1980. Três anos mais tarde, foram criados os stents de nitinol. Um caminho 8
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