25 Anos - A Consolidação da Radiologia Intervencionista no Brasil

1.1. PRIMÓRDIOS DA RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA QUANDO A FICÇÃO CIENTÍFICA SE TORNA REALIDADE A primavera se despedia e a temperatura estava agradável naquele mês de junho, na pequena cidade tcheca de Karlovy Vary, quando Charles Dotter (1920-1985) desembarcou de uma cansativa viagem de 11 horas desde sua Portland, em Oregon, Estados Unidos. Na bagagem, o médico radiologista vascular norte-americano, então com 44 anos, levava o resultado de horas de estudo, muito entusiasmo e uma enorme expectativa. Chamado para palestrar no Congresso Tcheco de Radiologia que acontecia na cidade, pela primeira vez ele iria apresentar, oficialmente, sua invenção. Determinado e apaixonado, Dotter tinha certeza de que, com sua ajuda, a medicina daria um salto para o futuro a partir daquela data. Tomado por essa certeza, intitulou assim sua palestra: “Cateterismo cardíaco e técnicas de angiografia do futuro”. Estávamos em 1963, ano em que o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, fora assassinado em um passeio de carro aberto, e o momento de sua morte foi acompanhado pela televisão, com perplexidade, pela população mundial. Espremidos entre os mandos e desmandos políticos dos líderes de duas nações poderosas do planeta — União Soviética e Estados Unidos —, vivíamos também sobressaltados com as notícias de guerras como a do Vietnã, que durou de 1955 a 1975. Mas ali, na linda cidadezinha que serviu como cenário de muitos filmes — entre eles 007 Cassino Royale —, a conversa era bem outra. Tratava-se de salvar vidas com uma abordagem totalmente inovadora. Não era um devaneio. Dotter trazia ao mundo médico a notícia de que era possível tirar os bisturis das mãos dos cirurgiões e substituí- -los por pequenos tubos capazes de viajar pelos sistemas arteriais e venosos do corpo humano, sem necessitar de incisões. E mais: dessa forma, daria também uma nova função aos angiografistas, que até aquela data só se preocupavam em entregar diagnósticos radiográficos, confirmando ou não as suspeitas clínicas, para os cirurgiões selecionarem, entre si, qual o tratamento mais adequado ao paciente. Na plateia do congresso tcheco, cerca de 300 médicos ouviram com atenção redobrada as explicações de Dotter. O médico falou por uma hora e foi, durante todo o tempo, exultante, inspirador. No final, o auditório em peso aplaudiu-o por vários minutos. E ele respirou, aliviado. Talvez tivesse passado por sua cabeça, enquanto palestrava, o temor de viver algo parecido com o que acontecera ao prêmio Nobel Werner Forssmann, quando submeteu a seus pares, em um congresso de cirurgia em 1931, sua experiência com a cateterização vascular. 5 SOBRICE 25 anos

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