break. Tão concentrado estava em sua fala sobre o uso de stent-grafts para correção de aneurisma da aorta abdominal, que o auditório veio abaixo com gritos e gargalhadas, e ele continuou falando, como se nada estivesse acontecendo. “Ele não percebeu nada”, lembra Feliciano Azevedo, testemunha dessa confusão. Azevedo lembra também que, embora a paixão pela RI fosse imensa, estava longe de ser a única. Fotografia, história, cinema, viagens, física, astronomia, política e economia faziam parte do enorme leque de interesses de Uflacker, que não foi seu professor, mas cujo nome usa para expressar a gratidão que tem por Rubens Ribeiro, da UFRJ, a quem se refere como “meu Uflacker carioca”. Além da admiração profissional, uma lembrança recorrente de quem conviveu de perto com Uflacker é seu amor à família. Os procedimentos feitos durante o dia de trabalho eram sempre comentados na mesa de jantar, como relata André Uflacker. Esse era um hábito de que nem seu pai, nem sua mãe, Helena, jamais abriram mão, assim como comer fora nos fins de semana, visitar museus, passear por Charleston, para onde a família se mudou em 1993, viajar. “Durante a semana, nós só estávamos com ele à noite. Mas, nos fins de semana, ele aproveitava quando eu e minha irmã estávamos na casa de algum amigo para estudar e escrever seus artigos. Fora isso, ficávamos juntos”, lembra. Mesmo em família, no entanto, as paixões se misturavam. André e Alice Uflacker cresceram ouvindo casos de como o pai resolvera situações difíceis em seu trabalho como radiologista intervencionista. Eram relatos entusiasmados, cheios de detalhes que eles não compreendiam, porém sabiam ser importantes. André, hoje também radiologista intervencionista na MUSC, lembra-se particularmente do encanto de Uflacker com o surgimento dos microcateteres. Ele era ainda adolescente, nos anos 1990, quando soube pelo pai que um paciente com sangramento intestinal grave havia sido salvo pela possibilidade de usar apenas a vascularização colateral do abdômen — algo impossível com os cateteres usados na angiografia. A paixão de Uflacker por sua profissão era tamanha que seus filhos, ainda pequenos, conseguiam perceber que o pai estava compartilhando com eles algo precioso. André herdou do pai a habilidade manual e o interesse por aviões, o que o fez gostar de aeromodelismo no início da adolescência — e é característica fundamental para atuar em RI. Dos gostos paternos, o único que definitivamente não o capturou foi o de restaurar carros antigos e raros, que começou a colecionar em 1998, quando comprou um Alfa Romeo branco. Quando morreu, Uflacker estava restaurando o quinto Alfa Romeo, comprado no Brasil. Herdou também, e considera que é sua herança mais importante, uma enorme preocupação 23
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